domingo, 21 de abril de 2013

Da utilidade e da beleza da criatividade, fora do cavalete da pintura…

Uma estagiária, entusiasmante, partilhou numa das suas reflexões o seguinte pensamento:
“A criatividade abre horizontes. Torna a vida mais útil e bela ”(Pons e Gonzalez, 2003:50).
De seguida enumerava um conjunto, aparentemente, eficaz de estratégias em que a criatividade pudesse ser evocada. Apontou, entre outras, a sua importância na resolução de problemas.
Há uns tempos atrás, quando trabalhei com um grupo de Jardim-de-Infância, comecei a introduzir a avaliação por portfolio como uma das formas mais coerentes de acompanhar o processo evolutivo da criança e de o revelar. Fui fazer uma formação sobre essa prática de avaliação, considerada por muitos como “alternativa”. Nessa formação, moderada por uma educadora experiente, falámos de estratégias que levam a criança a refletir. Fiquei fascinada com as novas ideias que me acrescentavam aqueles debates e resolvi adaptar algumas estratégias de ação, no meu dia-a-dia com as crianças do grupo.
Muitos conflitos existiam naquela sala de atividades. Passavam a vida a chamar-me:
- Andreia, a Liliana disse que eu era feia! (Em prantos.)
- Andreiaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa, o Pedro está a bater no Tiago.
- An-dreiiiiiiii-aaaaaaa…
- Andreia!!!!!
- Andreia??
Era o “Deus me acuda”. Passava grande parte do tempo a “apagar fogos”. Até que um dia coloquei duas cadeiras frente-a-frente num espaço mais resguardado da sala e chamei-lhe lugar de resolver conflitos.
Houve um dia que disse em tom de convite:
- Vão para as cadeiras, olhem um para o outro e conversem. Resolvam o vosso problema. Depois chamem-me.
Olharam-me com ar suspeito. No início tive a sensação de que acharam que era um castigo inovador. Por isso fiz questão de dizer que não era castigo e frisar que era um lugar para conversar, porque me recusava a ouvir queixinhas ou discussões sem nexo.
Lembro-me perfeitamente do primeiro par que lá se sentou. Ficaram calados, nada disseram um ao outro. Enquanto eu ia perguntando se já tinham resolvido o assunto… Progressivamente as crianças começaram a usar as cadeiras de forma bastante criativa e autónoma. “Vamos conversar”, foi das expressões que se passaram a ouvir com mais frequência. E as atitudes também mudavam. Saiam das cadeiras, davam um aperto de mão e diziam que já estavam amigos outra vez. “Sobre o que falaram?”, “Afinal o que se passou?”, ía perguntando eu, à medida que me sentia menos incluída… Algumas crianças começaram a ir assistir aos diálogos das “cadeiras” e a dar opiniões criativas. Tenho pena de não ter escrito algumas dessas opiniões. De facto, seriam úteis duas cadeiras na vida de muitos adultos e as sugestões dos pequeninos apresentar-se-iam como uma mais-valia. Eles sabem, de forma única, tornar a vida mais bela. São menos complicados. Nós temos muito a aprender com eles se dermos, como estas crianças, espaço aos nossos conflitos para serem resolvidos sem falsos pudores ou preconceitos instalados. Gente útil mete mãos à obra e cria de forma bela.
 Vygotsky (psicólogo e pedagogo) relembra que a atividade criadora é que nos volta para o futuro, construindo-o e modificando o presente.
“A vida é Bela” (de Roberto Benigni, 1997) é um bom exemplo cinematográfico que ilustra como a criatividade, em tempos de crise, pode abrir horizontes!
Sugestão de leitura:
Vygotsky (2009). Imaginação e Criação na Infância. SP: ATICA
 (*Tenho lido artigos sobre este ensaio, contudo não encontrei ainda a publicação em Portugal…)
(ps.: Mal posso esperar por partilhar este texto com a minha querida estagiária.)

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